Onze de Junho

Nota: Essa foi uma história emprestada por uma grande amiga e a agradeço muito por me dar a chance de escrever esse adendo. Complete-a em: http://liliantormin.blogspot.com.br/2012/07/onze-de-junho.html

Dia onze de junho em um ano qualquer. O inverno batia as portas com ventos gélidos e nada convidativos. Um clima cinza e ameno em uma cidade mais ou menos do mesmo modo. E, apesar de tudo isso, era um frio que a fazia suar.

Acordou com o cabelo bagunçado em uma cama de lençóis brancos. Cena comum, tirando uma percepção antiga que se instaura. Seus sentidos se ampliam com as emoções e pequenas peculiaridades sensoriais dessa situação familiar. Apesar disso, levanta-se, escova os dentes, penteia os cachos delicados e deixa a rotina como condutora.

No trabalho, ela se estressa, almoça, se atrapalha, da uma risada. Nada extraordinário para qualquer observador comum. Mas ela é mulher com jeito de menina, taurina como ela só. A rotina resolve abandonar esse carro desgovernado e a expectativa assume o volante.

Está chegando a hora.

A expectativa é uma guia rápida e inconstante que a carrega pelas ruas, pelo metrô, pelo caminho. Para no ponto de encontro marcado, ansiosa pelo que vem a seguir. Os minutos, insatisfeitos com tanta pressa, resolvem caminhar lentamente. Só de pirraça mesmo. Eternidades passam até que seus olhos verdes não seguram a expectativa e sua boca lhe trai com uma risada descontrolada.

Ele chegou.

Perto dele, nunca sabe ao certo quem é. Conhece seu toque, cheiro, metamorfoses que sofreu após conhecê-lo. Sabe que rosto nunca disfarçou o turbilhão de pensamentos que vem e vão de tempos em tempos. Sabe que ele a conhece perfeitamente e a tem na mão. É seu caso mais antigo, mais longo. Atemporal.

Claro que existiram outros caras, nessas lacunas. E, independente de serem rápidos, breves, longos, intensos ou apaixonantes; o caminho de volta era sempre inconsciente e seguro. No fim, a questão sempre chega nele quando algo (ou alguém) dá errado. E sempre se perde nos devaneios de quem fomos, como éramos, o que seriamos, o que seremos e tudo que fizeram deles um nós. Essa conjugação futura, na primeira pessoa do plural, sempre foi problemática.

Tentou até escolher a lingerie de mulher fatal. Aquelas que lhe darão a postura de “decifra-me ou devoro-te”. Mas, por fim, teve que se contentar com ela mesma e a esperança de entender quem é ao lado dele.

Sem cerimônia, ele dispensa os rituais tradicionais da sedução, do quem beija quem primeiro e a cumprimenta com selinho. Natural. Suave.

Ela se perde.

Seu coração volta a bater sem tropeços.

Aos olhos de todos, são só mais um casal comum indo de metrô até a Avenida Paulista, numa noite fria de São Paulo. Caminham de mãos dadas embaixo da torre da rede Globo, ouvindo um sax aleatoriamente perfeito para o momento. Eles vão ao Fran’s Café, riem e lembram-se da vez que ele a beijou como Nino beijara Amelie em “O Fabuloso Destino de Amelie Poulin”.

O frio finalmente os expulsa da rua para o aconchego de sua casa. Os lençóis brancos pegam o ritmo daqueles corpos. A cadência da respiração de dois apaixonados, do toque de dois corpos. Mais do que sexo, é um encaixe assimétrico e, por isso, perfeito. Beijos, risadas, fotos, orgasmos e um final de noite pleno.

Despedida.

Estão na catraca do metrô, em nova cena já conhecida. Um breve adeus sem previsão de retorno (coisas da vida). Um novo beijo mais intenso marca essa manhã estranha do dia seguinte. Ele vai com a expectativa, mas deixa as lembranças e uma mulher ansiosa para outra noite fria de onze de junho.

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